Grupos de Trabalhos do Congresso Entre Mares: a Literatura, Leitura do Mundo

GT: (En)cantos de resistência: literatura e cultura afro-brasileira

Acauam Silvério de Oliveira (UPE)
acauam.oliveira@upe.br
Mayk Andreele do Nascimento (UFAL)

Resumo: Durante muito tempo a cultura produzida no Brasil foi enquadrada sob o signo da univocidade, regida a partir de um denominador comum. O conceito de “brasilidade” constituía-se enquanto horizonte de pretensa neutralidade, apaziguador e conciliador das diferenças, simulando a pura presença de uma cultura imaculada. Nesse sentido, as diversas instituições que constroem os saberes em torno das manifestações culturais produzidas em território nacional funcionam como dispositivos de poder cuja função é mobilizar diversas estratégias de negação e apagamento das diferenças. É precisamente contra essa metafísica da presença, de cunho essencialista, que apaga as marcas da diferença radical, que vemos emergir os mais diversos sobrenomes com o objetivo de rasurar a própria concepção de brasilidade: literatura e cultura feminina, negra, periférica, popular, homoafetiva, entre outras identidades. Sobrenomes que não pretendem consolidar-se enquanto novos essencialismos – regimes de uma verdade única e inconciliável – mas sim produzir deslocamentos que desterritorializem os chamados significantes “nacionais”, colocando-os em um perpétuo movimento de instabilidade a partir do qual podem vir a emergir as diferenças. O que tais suplementos propõem é, antes, o reconhecimento do Significante-Mestre nacional enquanto espaço de violência e produção de zonas de silêncio, a partir do confronto com seus próprios limites. Por exemplo, ao reconhecer no corpo negro e feminino da vereadora Marielle Franco o avesso complementar da identidade brasileira, supostamente mestiça, o caráter de arbítrio e simplificação inscrito nessa identidade conciliadora é desmascarado, fazendo emergir as vozes marginalizadas enquanto lugares\tempos de resistência e confrontação. Partindo de tais acepções, esse GT pretende reunir pesquisas referentes aos campos da literatura e cultura afro-brasileiras, com o propósito de refletir sobre a complexidade dos mecanismos de composição dessas formas. Nesse sentido, a proposta do GT abre-se para pesquisadores que trabalham com as mais diversas linguagens estéticas e práticas culturais: música, cinema, artes plásticas, literatura, quadrinhos, programas televisivos, seriados e demais expressões culturais ligados à temática étnico-racial.
Palavras-chave: literatura afro-brasileira; cultura afro-brasileira; relações étnico-raciais; identidade; violência.

GT: Literatura afro-brasileira contemporânea: o levantar das vozes

Cícera Antoniele Cajazeiras da Silva (UFERSA)
ciceraantonielle@gmail.com
Sarah Maria Forte Diogo (UECE)
sarah.forte@uece.br

Resumo: As primeiras manifestações da literatura afro-brasileira se realizam a partir do momento em que os negros começam a produzir as primeiras ficções que representavam sua própria condição, enquanto escravos ou libertos do regime. Fazendo do discurso literário instrumento de empoderamento e de representatividade por meio do qual ecoa sua voz, o sujeito negro dessa época busca tomar as rédeas de sua fala e, apropriando-se da palavra como meio de subversão e de potencial libertação, questiona as máculas do escravismo e de outras opressões que dele derivam, com o objetivo de conquistar um espaço respeitoso para si e de reexaminar sua identidade e assim (re)construí-la. O referido período, no entanto, é fortemente marcado pela hegemonia da escrita literária de moldes europeus, em meio ao qual a cultura negra resvalava, como temática ou como elemento de ilustração pitoresca. Os textos literários produzidos por afrodescendentes permaneceram à margem durante muito tempo, sob o signo da resistência. Como ressonância dos esforços dessa primeira escritura negra no Brasil, a produção dos séculos XX e XXI emerge sob a ideia do fortalecimento e da consolidação da identidade afro-brasileira via discurso literário. Eduardo de Assis Duarte delineia, em Literatura Afro-brasileira: um conceito em construção, cinco critérios que caracterizam essas produções literárias, a saber: temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público-leitor. A articulação desses critérios nos permite caracterizar o discurso literário afro-brasileiro de modo a observá-lo enquanto espaço em constituição e meio de representatividade e reação às opressões vivenciadas. Por literatura afro-brasileira compreendemos as obras produzidas por autores que se compreendam enquanto sujeitos negros e reflitam, em seus discursos ficcionais, sobre as experiências construídas por negras e negros em contextos os mais diversos. Escritoras como Ana Maria Gonçalves e Conceição Evaristo, por exemplo, problematizam em seus romances o estar no mundo da mulher negra, explorando a condição do negro para além de vítima do processo de escravização. As autoras, dessa forma, contribuem para a valorização da história do negro e mostram muitos aspectos da cultura brasileira que permaneciam marginalizados e quase invisíveis em outras épocas. Este grupo de trabalho se propõe a discussões que examinem obras literárias afro-brasileiras dos séculos XX e XXI – poesias, contos ou romances – que explorem questões como identidade, negritude, afro-brasilidades, sob perspectivas que ficcionalizem a situação da negra/negro brasileiros na contemporaneidade, seus dilemas e suas formas de representação.
Palavras-chave: identidades; literatura afro-brasileira; cultura afro-brasileira; contemporaneidades.

GT: Escritores e Artistas do Mundo Lusófono pró-África

Fabiana Carelli (USP)
fbcarelli@gmail.com
Renata Soares Junuqueira (UNESP)
renata@fclar.unesp.br

Resumo: No artigo de 1993, “Cinema e antropologia para além do filme etnográfico”, o antropólogo, escritor e cineasta angolano Ruy Duarte de Carvalho afirmaria, em consonância com manifestos anteriores como o célebre “Eztetyka da fome” (1965), de Glauber Rocha, e citando a Carta de Argel do Cinema Africano (1975): “a Carta de Argel afirma que ‘o Cinema tem um papel primordial a desempenhar porque é simultaneamente um meio de educação, de informação e de tomada de consciência, e igualmente um estimulante da criatividade. A realização de tais objectivos pressupõe uma interrogação do cineasta sobre a imagem que ele faz de si mesmo, sobre a natureza de sua função e do seu estatuto social, e de uma maneira geral sobre sua situação no seio da sociedade’” (Carvalho, 2008). Na esteira dessas afirmações, este Grupo de Trabalho pretende, no âmbito do eixo temático “Literaturas Africanas: Cânones em Formação?”, articular reflexões sobre o papel de artistas de expressão lusófona na construção da resistência à colonização e à exploração de países africanos por meio de projetos artísticos que rechaçam o imperialismo e estimulam a valorização das várias culturas autóctones integradas ao continente africano, a fim de promover princípios revolucionários – estéticos e políticos – que solidarizem entre si os povos africanos e os povos de outros lugares periféricos marcados pela lusofonia. Serão especialmente bem-vindos estudos interdisciplinares que contemplem a literatura em relação com outras linguagens – como a do teatro e a do cinema, dentre outras –, dando azo a análises comparativas que nos permitam compor um quadro relativamente alargado das culturas africanas relacionadas entre si e também com outras culturas tidas como periféricas. Além de linguagens artísticas variadas, esperamos acolher trabalhos que reflitam sobre a literatura associada a outras áreas do pensamento como a antropologia, a sociologia, a linguística, a psicologia, a ecologia e a fisiologia. Naturalmente, neste quadro comparativo também terão lugar os estudos comparados de literaturas de língua portuguesa que proponham uma análise atual do sistema de trocas recíprocas entre as literaturas africanas e as demais literaturas da lusofonia.
Palavras-chave: Literaturas Africanas; lusofonia; colonização; resistência.

GT: África no feminino: mulheres escrevem a África

Kleyton Ricardo Wanderley Pereira (UFRPE)
kleytonrwpereira@hotmail.com
Francisca Zuleide Duarte de Souza (UEPB)
zuleide.duarte@hotmail.com

Resumo: Sobre o que escrevem as mulheres africanas? O que dizem essas mulheres sobre a experiência na construção da história e da cultura dos países em que nasceram no continente africano? A partir da independência política dos países africanos, presenciamos um número cada vez maior de mulheres que escrevem e publicam suas obras para contar suas versões da história. Inserido de maneira híbrida nas estruturas social, histórica e ficcional, o romance africano contemporâneo mostra o resultado do choque entre culturas distintas através dos diversos agenciamentos, resistências e negociações entre os sujeitos pós-coloniais (ASHCROFT et al., 1993; SAID, 1999). A urgência em dar voz e vez às visões de mundo pela dicção feminina faz com que muitas escritoras muitas vezes imprimam em suas narrativas, através do texto oral ou escrito, histórias que retratam o papel da mulher na sociedade ancestral e os conflitos na adaptação a uma nova realidade advinda dos processos de descolonização. Desse modo, este grupo de trabalho tem por objetivos: 1) dar maior visibilidade à produção ficcional e crítica de escritoras africanas, bem como as seus estudos acadêmicos; 2) refletir sobre a produção das literaturas escritas por mulheres africanas, em qualquer idioma, pondo em relevo as vozes silenciadas através da discussão de temas sobre a construção de novas identidades culturais, o pós-/des-/colonial, a (des)territorialidade, a migração, o exílio, o feminismo e a construção de um novo cânone.
Palavras-chave: Literaturas africanas; Identidade cultural; Feminismo.

GT: Naus da ficção portuguesa contemporânea

Pedro Fernandes de Oliveira Neto (UFERSA)
pedro.letras@yahoo.com.br
Jonas Jefferson de Souza Leite (UERN)
jonasleite@hotmail.com

Resumo: A literatura portuguesa nos últimos sessenta anos revestiu-se de uma variabilidade nas formas, estéticas e temas e tem assumido uma nova face, mais aberta, plural e ingressada no que poderíamos designar numa literatura de corte universal; trata-se isso ora como uma força marcadamente típica do post-modernismo (cf. ARNAUT, 2002), ora como fluxo comum dado a toda época, afinal a literatura é sempre um “modelo orgânico, vivo” (cf. REAL, 2012). Independente de qual perspectiva teórica nasça uma compreensão sobre esse fenômeno, o fato é que se cobra novas maneiras de pensar sobre o literário e sua relação seja com o cânone, seja com as formas de criação, seja com as questões sociais, culturais e políticas, porque, afinal, o que tais mudanças implicam, numa dialética, são novas formas de ser e estar no mundo (cf. SEIXO, 1984). Isto é, o produto das transformações porque passa a ficção têm motivações de ordem diversa e a principal delas responde pela presença do homem e sua maneira como se relaciona com as novas posições assumidas nos contextos pelos quais transita; ao mesmo tempo, a literatura tece uma participação na variabilidade das forças reinauguradas no mundo fora do tecido textual. O que marca este período, então, é o desenvolvimento de novas práticas e experiências com a narrativa, a proliferação das inquietações tornadas em matérias temáticas dos novos ficcionistas – ora afastando-se do conteúdo histórico-social e de uma reflexão sobre os modos de ser e estar português para se aproximar de preocupações de ordem a um só tempo interior e exterior ao indivíduo do seu país ora reinventando alguns temas recorrentes, tais como a guerra colonial, os transes da imigração, as crises do sujeito, a diversidade das relações humanas desencadeadas no extenso e complexo jogo social etc. No interesse de compreendê-la, relacionar a pluralidade de eventos decorrentes dessa dinâmica geral da ficção, reafirmar essa tendência à dispersividade, e, evidentemente, na busca por uma unidade dialética que possa compreendê-la na sua pluralidade, é que se constitui este simpósio cujo intuito é, a partir da leitura da ficção (o conto, a crônica, o romance), abrir algumas coordenadas úteis teoricamente e metodologicamente para pensar sobre o que, no fim de tudo, se apresenta enquanto um afã da literatura portuguesa pela globalidade.
Palavras-chave: Crítica literária; Literatura portuguesa; Ficção portuguesa contemporânea.

GT: O cânone literário e a literatura periférica em Angola e Moçambique

Vanessa Riambau Pinheiro (UFPB)
vanessariambau@gmail.com
Marinei Almeida (UNEMAT)

Resumo: O propósito deste Grupo de Trabalho é promover a reflexão acerca da formação do cânone literário em Moçambique e em Angola, investigando que processos concorrem para sua constituição e de que lugar teórico opinam os críticos que o determinam. Se tomarmos como verdade o pressuposto de que a literatura constitui-se a partir da representação da sociedade, tal qual nos afirma o conceito aristotélico de mímesis, podemos inferir que o cânone pretende fixar valores considerados representativos de determinada época histórica e/ou cultural, buscando estabelecer uma relação de identificação com determinado país que o representa. Para que esta relação seja estabelecida, entretanto, é necessário que os textos situados na mesma perspectiva diacrônica sejam afins, coadunem-se de tal forma que sua bacia semântica possa ser reconhecida como paritária e homogênea. Tal fator é ainda mais determinante ao se tratar das literaturas pós-coloniais ou pós-europeias: por serem relativamente recentes – boa parte delas tem pouco mais de cem anos –, encontram-se ainda em fase de consolidação e carecem de ícones que as legitimem face ao mundo externo.
Dentre os aspectos nos quais se assemelham estas literaturas africanas de língua oficial portuguesa verificamos, em um primeiro momento, a nativização da língua portuguesa – através dos escritos de Luandino Vieira e Uanhega Xitu, por exemplo – a recorrência de temáticas de cunho animista – em Paulina Chiziane e Mia Couto, por exemplo – e de um recente resgate ao passado histórico ancestral (Ungulani Ba Ka Khosa, Pepetela, Mia Couto e José Eduardo Agualusa) e colonial (Pepetela, Mia Couto, Ondjaki). Convidamos os pesquisadores a refletirem, portanto, sobre os autores ditos consagrados em Angola e Moçambique, bem como a discorrerem a respeito dos escritores cujas obras não alcançam projeção fora de seu respectivo país de origem, analisando que fatores concorrem para tal.
Palavras-chave: cânone literário; literatura periférica; Angola; Moçambique.

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