Programa | Narrativas africanas de língua portuguesa: memória e história

Modalidade do Curso: Extensão
Carga Horária: 30 horas
Taxa de Inscrição: R$ 30,00
Período: 11 de abril a 18 de julho de 2017 / Terças-feiras / 14h00 às 17h00
Local: Universidade de Pernambuco – campus Garanhuns
Ministrantes:
………………Profa. Dra. Silvania Núbia Chagas
………………Prof. Ms. Anderson de Souza Frasão
………………Prof. Esp. Erick Camilo da Silva Gouveia
………………Prof. Ms. Jeferson Rodrigues dos Santos
………………Prof. Ms. José Aldo Ribeiro da Silva
Período de Inscrição: 13 a 31 de março de 2017
Descrição:

Ementa
O curso se propõe a realizar leituras atualizadas de narrativas contemporâneas africanas de língua portuguesa, mais especificamente, de Angola e Moçambique, com o apoio de textos críticos e teóricos, na tentativa de demonstrar o contexto sócio-político e cultural dos dois países, contemplando toda a sua trajetória, tanto no que se refere aos aspectos estéticos literários e linguísticos, bem como, os aspectos externos no que concerne aos métodos históricos, sociológicos, psicológicos e filosóficos que corroboram na construção do tecido discursivo destas narrativas. Farão parte deste curso, narrativas de autores como Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, Paulina Chiziane e José Eduardo Agualusa, intelectuais que, ao longo do tempo, têm colaborado com o desenvolvimento cultural de seus países, não somente, resgatando o patrimônio legado pela tradição oral, mas, demonstrando o seu imbricamento com a modernidade.

Objetivos
Apresentar aos discentes um panorama das literaturas africanas de língua portuguesa por meio das leituras e reflexões das narrativas contemporâneas de Angola e Moçambique, na tentativa de demonstrar como estas nos remetem a trajetória sócio-política e cultural destas sociedades, não deixando de contemplar os pressupostos literários e linguísticos que enformam o seu discurso, permitindo que sejam classificadas como obras de arte. Fornecer subsídios críticos e teóricos que auxiliem na formação do docente, permitindo que este possa desenvolver o ensino das literaturas africanas nas salas de aula do ensino básico.

Programa
1ª aula (11 de abril de 2017)
Breve panorama das literaturas angolana e moçambicana – Profa. Dra. Silvania Núbia Chagas
Neste encontro tratar-se-á da apresentação das literaturas africanas de língua portuguesa, mais especificamente, de Angola e Moçambique.

2ª aula (25 de abril de 2017 ) e 3ª aula (02 de maio de 2017)
Uma leitura do livro Os transparentes, de Ondjaki – Prof. Ms. José Aldo Ribeiro da Silva
Composto em torno dos problemas enfrentados pelos angolanos contemporâneos, Os transparentes apresenta-se como romance de grande relevância para a reflexão sobre a diversidade que se perfaz nos cenários urbanos presentes em Angola, pois, em sua tessitura, saberes de proveniências diversas se entrelaçam e são encenados o contato e o convívio entre práticas tradicionais e modernas. Compondo um quadro em que se aliam tons poéticos, melancólicos e bem humorados, Ondjaki visibiliza, mediante o uso de uma linguagem que amplifica as vozes da oralidade angolana, os conflitos que se apresentam aos moradores de uma “zona de contato” que constantemente se depara com a necessidade de negociar entre valores e práticas do passado e demandas e imperativos do presente. A análise de Os transparentes se apresenta, dessa forma, como um exercício de compreensão das tensões e contradições presentes nas cidades angolanas de nossa época.

4ª aula (16 de maio de 2017) e 5ª aula (23 de maio de 2017)
Uma leitura do livro Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane – Prof. Ms. Anderson de Souza Frasão
“Estória” contada em primeira pessoa, Niketche tematiza a poligamia – costume socialmente aceito em certas sociedades que permitem a união conjugal de uma pessoa com várias outras. Em contexto moçambicano, urbano e “moderno”, esta narrativa tem como protagonista Rami, esposa do alto oficial de polícia Tony, que aos poucos se vê imersa num contexto complexo, do qual advém uma série de conflitos culturais, étnicos e pessoais. Forçosamente essa personagem percorre veredas de existencialismo, autoconhecimento e, passo por passo, faz niketche: dança, ritual de amor e erotismo. Diante disso, a análise desse romance se propõe em discutir o contexto histórico, cultural e social de Moçambique.

6ª aula (06 de junho de 2017)
Uma leitura do livro A gloriosa família, de Pepetela – Prof. Ms. Jeferson Rodrigues dos Santos
A Gloriosa Família, ao voltar para o século XVII, narra um momento específico da história colonial angolana: os sete anos de invasão holandesa. As malhas textuais são tecidas a partir da previsão de Matilde, uma das filhas do “patriarca” Baltazar Van Dum, que fita preservar o grupo familiar para a posteridade mediante as trocas e os contatos entre povos e culturas distintas. Esta saga da família Van Dum é lida sob o ponto de vista das formas de figurar e representar a narração da nação, sua formação e identidade(s): Baltazar, um holandês, e D. Inocência, mulher da nobreza africana, geram oito filhos, os quais, ao longo do percurso, se relacionam com personagens advindas da África, da América-Latina e da Europa, o que revela as várias “origens”, a construção de uma descendência “mestiça cultural”, que se fazem perante as relações conflitivas, ora de “aceitação”, ora de “resistência”. A leitura do romance, investigando outros testemunhos da história por meio de um escravo que questiona a ausência de escrita e testemunho da oralidade, assim como observando as retóricas da cultura dita nacional composta pelas relações entre “a” “cultura local tradicional” e “a” “cultura mestiça”, revela um produtivo caminho para a reflexão sobre a narrativa contemporânea angolana.

7ª aula (20 de junho de 2017) e 8ª aula (27 de junho de 2017)
Uma leitura do livro As mulheres do meu pai, de José Eduardo Agualusa – Prof. Esp. Erick Camilo da Silva Gouveia
O tema da viagem, de modo geral, é caro às narrativas africanas de língua portuguesa e o romance As mulheres de meu pai (2007), do angolano José Eduardo Agualusa, a nosso ver, embarca neste trajeto de forma primorosa. A narrativa gira em torno da busca de uma reconstrução da vida do compositor angolano Faustino Manso – após sua morte –, o qual, em sua travessia pelo continente africano, deixou um rasto de vivência constituído por sete viúvas e dezoitos filhos. Nesta busca de reconstrução, empreendida por sua filha mais nova, Laurentina – diretora de cinema e documentarista –, a realidade choca-se com o mito da figura do compositor que descobriu, através de um simples exame, ser estéril. A materialidade da viagem se apresenta numa grande variação de registros, o que levanta a discussão, já muito realizada, mas ainda não esgotada, acerca da renovação do narrador; os registros parecem evocar certa autoridade narrativa, visto serem realizados através de anotações, cartas, diários de viagem, entrevistas e outros, o que, junto a renovação do narrador, reacende o tema do narrador da tradição e sua autoridade no “contar”, ou mesmo da necessidade de sua substituição. Para além do tema da viagem, a narrativa de Agualusa nos parece tratar de descontinuidades, que podem se apresentar como fragmentação, devido à constante mudança, não apenas de lugares, mas de registros, de vozes, no tempo que se busca reconstituir através do depoimento das mulheres, filhos e amigos de Faustino Manso, ou mesmo no mito em torno do compositor e que aponta para um tempo em suspensão. A fragmentação também se torna patente através do questionamento de algumas personagens sobre a existência de uma identidade africana (angolana). Toda esta variedade, seja de temas que se desdobram, seja de vozes que se opõem, contribuem para questionamentos importantes que podem nortear reflexões em torno de assuntos como identidade, memória – individual/coletiva – que está na base da formação das sociedades – povos/nações – e que pode apontar para a necessidade de rever a História, ou mesmo numa compreensão da modernidade, na busca de uma convivência pacífica, tendo em vista que esta é marcada pela diversidade.

8ª aula (11 de julho de 2017) e 9ª aula (18 de julho de 2017)
Uma leitura do livro Mulheres de cinza, de Mia Couto – Profa. Dra. Silvania Núbia Chagas
Primeiro romance da trilogia As areias do imperador, de Mia Couto, Mulheres de Cinza é uma narrativa contada por dois narradores: Imani, uma moçambicana e um português, o sargento Germano de Melo. Este, recém-chegado a Moçambique para cuidar dos interesses do colonizador durante o período da guerra entre este e o império de Gaza. Imani, apesar de saber escrever, pode ser caracterizada como uma narradora da tradição oral, uma vez que, narra a história do seu povo, se valendo dos pressupostos dessa cultura. Já Germano de Melo, o sargento é um narrador observador, conta a história através de cartas para o rei de Portugal. A narrativa é tecida entre a tradição oral e os pressupostos da modernidade. Vários gêneros se entrecruzam: a narrativa oral, o romance e o gênero epistolar. A análise desse romance, colocando em xeque os pressupostos do narrador da tradição oral versus o narrador da modernidade, representados pelas personagens Imani e Germano de Melo, bem como, o imbricamento entre os gêneros que a narrativa apresenta, tornará o debate muito profícuo para uma reflexão sobre a trajetória da narrativa contemporânea moçambicana.

Bibliografia:

Narrativas:
AGUALUSA, José Eduardo. As mulheres do meu pai. Rio de Janeiro: Ed. Língua Geral, 2012.
CHIZIANE, Paulina. Niketche. Uma história de poligamia. Lisboa: Ed. Caminho, 2002.
COUTO, Mia. Mulheres de cinza. As areias do imperador: uma trilogia moçambicana. Livro Um. Lisboa: Ed. Caminho, 2015.
ONDJAKI. Os transparentes. São Paulo: Cia. das Letras, 2013.
PEPETELA. A gloriosa família – o tempo dos flamengos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

Apoio teórico:
ALTUNA, Raul Ruiz de A. Pe. Cultura tradicional bantu. Luanda (Angola): Paulinas, Centro Multimédia de Evangelização e Cultura, 2006.
ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Ática, 1983.
_______. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
BEAL, Sophia. O jogo das reinvenções: uma entrevista com Mia Couto. Disponível em: http://www.storm-magazine. Acesso em:16.03.2005.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução Myriam Ávila et al. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ___. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994.
CHABAL, Patrick. Vozes moçambicanas. Literatura e nacionalidade. Lisboa: Vegas, 1994. (Col.Palavra Africana).
CHATTERJEE, Partha. Colonialismo, modernidade e política. Tradução de Fábio Baqueiro. Salvador: EdUFBA, CEAO, 2004.
CHAVES, Rita. Mia Couto: voz nascida da terra. In: Novos Estudos. São Paulo: CEBRAP; n.49, p.243-256, 1997.
_______. A formação do romance angolano: entre intenção e gestos. São Paulo, Universidade de São Paulo: Via Atlântica, 1999.
CHAVES, Rita et al. (orgs.). A Kinda e a misanga: encontros brasileiros com a literatura angolana. São Paulo: Cultura Acadêmica; Luanda, Angola: Nizla, 2007.
ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa: Ed. 70 Ltda., 1989.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Lisboa: Ulisseia, 1961.
_______. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
GALVÃO, Walnice Nogueira; GOTLIB, Nádia Battella (Org.). Prezado senhor, Prezada senhora: estudos sobre cartas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
HAMILTON, Russel G. Literatura africana, literatura necessária. Lisboa: Edições 70, 1983, v. I e II.
HAMPATÉ BÂ. A. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed.rev. – Brasília: UNESCO, 2010.
KANDJIMBO, Luis. Para uma breve história da ficção narrativa angolana nos últimos cinquenta anos. Revista de Filología Románica. América do Norte, n. 7, pp. 161-184, 2001.
LEITE, Ana Mafalda. et al. Nação e narrativa pós-colonial I: Angola e Moçambique. Lisboa: Edições Colibri, 2012.
LEPECKI, Maria Lúcia. Mia Couto. “Vozes anoitecidas”, o acordar. In:_______. Sobreimpressões. Estudos de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.
MACEDO, Tania. Luanda, cidade e literatura. São Paulo: Editora UNESP/Luanda: Nzila, 2008.
MARCON, Frank Nilton. Os Romances de Pepetela e a Imaginação da Nação em Angola. História Revista, [S.l.], v. 16, n. 1, pp. 31-51, 2011.
MARTINS, Débora Maria da Silva. O pós-Modernismo: (des)continuidades estéticas. In: Ícone – revista de Letras. v 16, nº 1. São Luís de Montes Belos: UEG, 2016. Disponível em: http://www.revista.ueg.br/index.php/icone/article/view/5095/3362 Acesso em: 18 de janeiro de 2017.
MATA, Inocência. Ficção e história na literatura angolana: o caso de Pepetela. Lisboa: Edições Colibri, 2003.
______. O universal e o local nas literaturas africanas: uma dicotomia sem suporte. Revista Ecos – Estudos Linguísticos e Literários da UNE – MAT, n. 1, p. 11-21, 2004.
PEREIRA DA SILVA, Eufrida. Falar para curar, ouvir para aprender – Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane. Mulemba, v. 5, n. 1, nov. 2016. Disponível em:
. Acesso em: 17 Jan. 2017. PRATT, Mary Louise. Os olhos do império. Relatos de viagem e transculturação. Trad. Jézio Hernani Bonfim Guerra. Bauru: EDUSC, 1999.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: a intriga e a narrativa histórica. Vol. I. Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: a configuração do tempo na narrativa de ficção. Vol. II. Tradução: Claudia Berliner. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: o tempo narrado. Vol. III. Tradução: Claudia Berliner. São
Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
ROSÁRIO, Lourenço. “Niketche” – o existencialismo no feminino. In: ROSÁRIO, Lourenço. Moçambique: história, culturas, sociedade e literatura. Belo Horizonte: Nadyala, 2010, p. 144-149.
SAID, Edward W. Cultura e imperialismo. Trad. Denise Bottman. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 2008.
VALENTIM, Jorge. Paulina Chiziane: uma contadora de histórias no ritmo da (contra-)dança. Abril – NEPA / UFF, v. 1, n. 1, p. 20-25, ago. 2008. Disponível em:
. Acesso em: 17 Jan. 2017.
VANSINA, Jan. A África Equatorial e Angola: as migrações e o surgimento dos primeiros Estados. In: NIANE, Djibril Tamsir (org.). História Geral da África, IV: A África do Século XII ao XVI. 2ª ed. Brasília: UNESCO, 2010, pp. 623-654.
VASCONCELLOS, Eliane. Intimidade das confidências. In: Teresa revista de Literatura Brasileira / área de Literatura Brasileira. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo – nº 8/9. São Paulo: Ed. 34, 2008.
WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2012.